Christiana Moraes na Casa de Tijolo por André Yassuda

Christiana Moraes na Casa de Tijolo

“A obra não reside no pincel, o que lhe permite transmitir-se; não reside na tinta, o que lhe permite ser percebida; não reside na montanha, o que lhe permite expressar a imobilidade; não reside na água, o que lhe permite exprimir o movimento; não reside na Antiguidade, o que lhe permite existir sem limites; não reside no presente, o que lhe permite existir sem antolhos.

Assim, se a sucessão das eras não está em desordem e se pincel e tinta subsistem na permanência dessas eras, é porque estão impregnados intimamente por essa obra. Essa obra baseia-se, na verdade, no princípio da disciplina e da vida: pelo Um, dominar a multiplicidade; a partir da multiplicidade, dominar o Um. Ela não recorre nem à montanha, nem à água, nem ao pincel, nem à tinta, nem aos Antigos, nem aos Modernos, nem aos Santos. Eis a verdadeira obra: aquela que se baseia em sua própria substância.” (As anotações sobre pintura do Monge Abóbora-Amarga: tradução e comentários da obra de Shitao/ Pierre Ryckmans; tradução para o português: Carlos Matuck e Giliane Ingratta. – Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2010, p. 164.)

Linhas negras, onde pedaços de bastões a óleo fundem-se no desenho traçado sobre as paredes brancas. É um trabalho à flor da pele… E das paredes, que a artista preparou por dias, deixando-as o mais uniforme possível, aplicando massa, lixando e pintando várias vezes. Algumas linhas traçadas com grafite completam o trabalho. O negro espesso e profundo (de vertigem) e a emanação do branco que se confunde com o ar em que nos movemos, é suficiente para nos colocar num lugar entre dimensões, onde o inconcebível pode talvez manifestar-se.

Neste espaço a pasta densa (compacta) do bastão oleoso, em alguns momentos fluindo com pincel, traça, designa a presença de figuras, como habitantes dessa atmosfera que, vista a noite na luz amarela da única lâmpada a iluminar o recinto parecem ainda mais inquietantes. Algo que incomoda e fascina ao mesmo tempo… Talvez perturbador, no sentido que pode ser um trabalho de Louise Bourgeois, como acabo por associar, não sei por que. Tudo aqui são qualidades em si; somos profundamente afetados por cada passagem dessas paredes, sentindo o forte cheiro de óleo de linhaça, nesta sala em que parecem ressoar os gestos tensos e precisos, no sentir tátil de cada pedaço da superfície que percorreram como gestos de Butô. Compactos pigmentos aglutinados no espesso óleo, dilacerado na superfície ao mesmo tempo aveludada e áspera.

A lâmpada de luz amarela foi escolha da artista, substituindo a de luz branca que estava anteriormente. Imagino que Goya deve ter pintado as paredes da “Quinta Del Sordo” à luz de velas, assim como as pinturas no fundo das cavernas na pré-história deviam ter sido iluminadas pelo fogo. Nesta luz amarela, neste ambiente interno (doméstico) abre-se, numa das paredes, uma janela. Suas grades de ferro nos dizem que já é tarde para escapar, estamos “internos” neste tempo/lugar profundamente humano: Christiana Moraes 03-08-12.

Os trabalhos nos mostram apenas o estritamente necessário, que nos remete ao possível, de onde pressentimos o absurdo, o silêncio e a vastidão do impossível (“nessa luz da des-razão”, como num poema de Orides Fontela). Os loucos, como as crianças, sentem o mundo sem filtros, como ele é e nada mais. E os artistas, que como diria Beuys, todos somos (uns mais, outros menos, dirá Kiefer)… E há aqui um esforço imensurável em manter-se desperto. Intern(ad)os, de portas abertas, aqui há poucos entretenimentos para nos distrair. E Basquiat… Desculpem-me essas citações todas, mas os trabalhos da Chris evocam muitas presenças… Ainda que invisíveis.

Esta relação precisa do desenho no espaço (material) do seu entorno potencializa e evidencia cada passagem como um fato pleno de autonomia na forma (maior) que delineia com a exatidão do necessário; remete-me ainda à obra de uma mestra da Chris: Regina Silveira, que talvez usasse aqui a técnica do adesivo, que exige o contorno preciso do recorte.

Neste trabalho da Chris cada gesto é ação do corpo, com uma intenção, uma presença talvez aprendida também com a obra de outros mestres do desenho, como nas gravuras de Goeldi, ou com o mestre Evandro Carlos Jardim, com quem Chris também conviveu na universidade. O preto no branco tem aqui a precisão incisiva do corte (entalhe), como só a prática da gravura pode ensinar ao gesto que desenha. A menção à Goeldi não é casual, o desenho da Chris, suas figuras devem muito ao Expressionismo e à economia daquele xilogravador, que reconhece no silêncio toda a verdade do inexprimível e inesgotável da sensação, a essência que habita o lado misterioso da matéria. O trabalho de Christiana Moraes é ponto alto de uma geração, que cresceu na infância sob o clima da ditadura (e das lâmpadas de tungstênio de luz amarela – a da exposição atual é das econômicas, mais modernas). Iberê também poderia ser um dos visitantes que a Chris “convidou” a estar presente neste espaço.

Mas falemos da experiência, e eu gostaria de destacar um desenho, que ocupa uma das quinas da sala, em que ficamos a buscar várias posições de onde o olhar possa articular-se melhor com a imagem. Ali vemos alguns traços feitos com grafite sobrepostos a outro desenhomaior, a pincel (único momento em que o traço se esgarça um pouco mais, diluído) que parece nascer de um ovo/cabeça (Clarice?)… Ou coração? Esse desenho me pareceu misterioso, com essa grande figura, talvez como um grande corpo/mãe que, de um ponto exato em que sem perceber nos colocamos para encontrar uma posição mais frontal onde as linhas se encaixem (perspectiva), parecemos habitar também seu acolhimento, e a figura ao centro poderia ser um reflexo (tendo em comum com a grande figura o espaço da cabeça/ovo/coração, onde estamos de volta). Ali tem figuras de gêneros distintos e todas parecem habitar este grande corpo/espaço que agora, pensando melhor, talvez seja uma forma nova (contemporânea?) de representar o corpo humano.

A Casa de Tijolo é ainda um fato recente, mas que no ambiente árido do sudeste já tem sua existência ameaçada pela seca implacável do espírito imobiliário especulador (a casa está à venda pelos proprietários).

No tempo voraz dos nossos dias, algo ainda pode nos lembrar que eles não são nunca foram e nunca serão nossos. Mas aqui, onde o convívio assume os seus riscos, sem falsas proteções (prisões) burocráticas institucionais, os artistas em seus diferentes momentos de processo, muitas vezes difíceis na busca de construir sua caminhada podem ter uma chance em fazer seus próprios “ritos de passagem”, com o imprevisível do encontro consigo mesmo e o mundo a sua volta também se faz presente (representação). A Casa de Tijolo (e de artistas), segue seu caminho, para ser compartilhado com seus pares (de qualquer profissão… no bom sentido). A seu dispor.

André Yassuda, 23-08-12.

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